A evolução tecnológica alcançou o público onde quer que ele esteja.
Resultado: nas ruas, meios de transporte e estabelecimentos comerciais de São Paulo, TVs de LCD pipocam notícias e publicidade 24 horas por dia.
É a chamada mídia out of home.
“A convergência de mídias se tornou realidade com o desenvolvimento de novas tecnologias e o avanço da Internet”. A frase ao lado possui 112 caracteres. Esse é o limite de toques para as notícias que pipocam em telas de LCD instaladas em estabelecimentos comerciais, transportes públicos, táxis e elevadores.

A mídia digital out of home, termo inglês que foi adotado para essa nova modalidade de comunicação que inclui conteúdo jornalístico, de entretenimento e publicidade, está em plena ascensão no país. No primeiro semestre de 2007, essas mídias registraram crescimento de 44% em relação ao mesmo período de 2006.
Impulsionada pelo mercado publicitário, que sofria com a queda de investimentos em mídias tradicionais, a proliferação dessa mídia só foi possível com a popularização da banda larga e com o uso de novas tecnologias, trazidas dos Estados Unidos e da Europa, onde a mídia digital out of home já fatura cerca de US$ 1 bilhão em publicidade ao ano.
A principal característica dessa comunicação é que ela atinge pessoas que estão em espera forçada, como acontece nos elevadores, nas filas dos aeroportos, nas viagens de ônibus, metrô e trem. A vantagem é que essa espera torna-se um momento propício para chamar a atenção do público que está totalmente aberto a receber conteúdo.
Dessa forma, a eficiência da mídia out of home pode ser entendida pela segmentação do público e baixa dispersão, como explica o diretor da YMidia Digital Soluntion, Daniel Farhat. Além disso, a mensagem transmitida não sofre efeito zapping (mudança de canal). “O nível de ruído e dispersão é praticamente zero”, pontua.
O publicitário Walter Longo, vice-presidente de estratégia e inovação da Y&R, declarou no “Proxxima 2008 – Encontro Internacional de Comunicação Digital”, realizado em São Paulo, nos dias 11 e 12 de março, que “as mídias digitais estão quebrando paradigmas. É uma evolução que está gerando revolução”. Estudo realizado em janeiro desse ano, pela consultoria OgilvyOne, nos Estados Unidos, confirma esse impacto e prevê que até 2020, 80% das mídias serão digitais.

(embarque / desembarque: nos aeroportos e nas plataformas de trem, as televisões entretém quem está esperando.)
A HORA É AGORA
Essa migração, no entanto, já está em curso. No último semestre de 2007, a Inbox Mídia atingiu um índice de crescimento de 100% entre os anunciantes, num mercado distante do eixo Rio–São Paulo. Localizada na capital do Pará, a Inbox já possui 190 monitores instalados em postos como o Terminal Rodoviário de Belém, os aeroportos internacionais de Belém e Manaus e em shoppings.
“Estamos em pé de igualdade com grandes empresas do cenário nacional de mídia digital”, comemora Otávio Lima, sócio-diretor da Inbox e criador do primeiro blog sobre digital signage – um outro nome da out of home, bem como outernet
– do Brasil.
Estabelecimentos como farmácias, academias, restaurantes, hospitais e hotéis também aderiram a esta forma de comunicação indoor. “Adaptamos o conteúdo dependendo do lugar onde estivermos. Nos shoppings, a programação vai ser mais fotográfica, com menos notícia sobre política e economia e mais sobre entretenimento e moda”, revela Felipe Forjaz, presidente da Elemidia, empresa que tem como braço a Elemidia Mall, que atua especificamente em shoppings.
Por essa razão, não só de notícias jornalísticas e publicidade é formada a grade de programação dessas televisões. “Customizamos a programação para o cliente, incluímos conteúdo institucional e de responsabilidade social, por exemplo. Além disso, mantemos uma equipe própria com jornalistas para filtrarem as matérias de acordo com o interesse do cliente”, diz Daniel Farhat, da YMidia, que administra mais de 400 telas.
Para levar a programação até as televisões, a tecnologia adotada, na maioria dos casos, é online, através de banda larga. Essa tecnologia dispensa a presença de um programador e permite uma atualização em tempo real.
A Elemidia começou a atuar em 2004, num ambiente inusitado até então, o elevador. Atualmente já são 2056 monitores de LCD instalados em 497 edifícios. Da região de Alphaville onde começou, chegou até Buenos Aires, passando pelas principais capitais brasileiras. Para chegar ao público, o conteúdo jornalístico do portal Terra sai de um transmissor, via banda larga, para o servidor central instalado em cada edifício, que redistribui as informações para os elevadores por cabos óticos.
Para o mercado publicitário, os números de eficiência dessa mídia são animadores. Dados registrados pelo Datafolha apontam um recall estimulado de 94%, ou seja, quando os usuários perguntados se lembram de alguma marca específica respondem positivamente. Numa análise de recorte espontâneo – sem que a marca seja citada na pesquisa – 67% registraram o anúncio.

(mobilidade digital: tvs no ônibus, no táxi, no elevador e no metrô. Diferentes tecnologias permitem que a informação chegue aos veículos em movimento.)
DENTRO DO TÚNEL
Outro setor que agregou as vantagens da mídia digital out of home foi o de transportes públicos. Metrô, ônibus e trens adaptaram a tecnologia para transformá-la em móvel e, portanto, acessível até durante o percurso dos veículos.
Pelos 10,5km de extensão da Linha Verde do Metrô de São Paulo correm, paralelos aos trilhos, cabos de fibra ótica. São eles os responsáveis por abastecer de conteúdo os 528 televisores localizados nos 11 trens que compõem essa linha. Ao chegarem nas estações, esses cabos se conectam a um computador central que transmite via wireless o conteúdo para um receptor que está instalado nas cabines de cada composição.
A Tv Minuto, que começou a operar em maio de 2007, é a empresa responsável tanto por essa tecnologia quanto pela programação. “O conteúdo é atualizado todo dia, em tempo real, e fica no ar das 04h às 00h, o mesmo período de funcionamento do metrô”, explica Dario Gohda, diretor comercial da Tv Minuto. A partir deste mês, nas telas de LCD de 17 polegadas, além da programação normal, que inclui dicas culturais e matérias sobre cidadania, serão transmitidas notícias online, fornecidas por um provedor de Internet.
“Quando completarmos a implantação, as três linhas somarão 5280 televisores que atingirão 3 milhões de usuários por dia e um investimento inicial de R$ 18 milhões”, conta Gohda. Com toda essa oferta, os anunciantes não demoraram a chegar. Desde de maio, cerca de 40 marcas já foram veiculadas pela Tv Minuto.
NO TRÂNSITO
Segundos dados da TVO, que começou a operar em outubro de 2007 em 400 ônibus de São Paulo, um passageiro fica em média 2 horas por dia dentro desse veículo. Aproveitando o tempo disponível, a TVO, assim como as outras mídias digitais out of home, leva ao usuário conteúdo informativo, entretenimento e publicidade.
Responsável pela produção da programação da TVO, a Mixer renova o conteúdo diariamente. A grade é dividida em pequenos blocos de até 1m30s, formando uma hora de programação que se repete entre 5h e 23h. O conteúdo da TVO não possui áudio, já que, segundo Fábio Ribeiro, diretor executivo da TVO, “é impossível ter um som de qualidade num ônibus urbano”.
Para chegar até as telas de 17 polegadas, a grade é enviada online para um servidor localizado nas garagens dos veículos. Quando os ônibus chegam para serem lavados e abastecidos, o servidor reconhece aqueles que possuem o equipamento e envia, via wireless, o conteúdo do dia seguinte.
“A TVO atinge cerca de 300 mil usuários por dia e o anunciante entendeu que é uma mídia nova, muita específica”, declara Ribeiro. A carteira de clientes já conta com Pernambucanas, Nestlé, Unilever, entre outras. O investimento inicial da empresa foi de R$ 3 milhões.
A BusTV é outra empresa que opera nos ônibus da capital paulista, desde de fevereiro de 2007. Atingindo uma frota de 250 ônibus, a tecnologia utilizada para a transmissão de conteúdo é portuguesa. “Todo o dia, quando os ônibus estacionam em suas garagens, uma equipe é deslocada para lá com um cartão de memória no qual está salva a programação do dia seguinte”, esclarece Ednilton Rogério Munin, gerente de produção da BusTV. Desde março desse ano, a BusTV entrou em operação no Rio de Janeiro. Nos próximos meses, Brasília, Curitiba, Salvador e Recife receberão o serviço.
Com 20 horas diárias de programação, a TvTrem se tornou um foco de entretenimento nas esperas pelos trens, que podem chegar até 20 minutos nas Linha C das plataformas da CPTM, em São Paulo. As telas de LCD de 32 polegadas são divididas em três partes. No centro, as matérias, elaboradas pela Estação 8, produtora responsável pelo conteúdo e tecnologia da TvTrem, tratam de cidadania, curiosidades da cidade, histórias dos bairros pelos quais o trem passa. No rodapé, uma barra reproduz em tempo real notícias produzidas pelo Portal Terra. Uma guia do lado esquerdo da tela traz informações da própria CPTM e sobre o clima e o trânsito da cidade, resultado da parceria com o Climatempo e com a CET.
O modelo da mídia adotado nas plataformas dos trens tem origem coreana. A central de transmissão envia, através de banda larga, o conteúdo para um servidor localizado em cada estação de trem. De lá, um operador reenvia as informações para cada uma das quatro televisões instaladas nas plataformas. “Escolhemos estar fora do trem para atingir mais gente e produzir conteúdo com áudio”, diz Rosa Jonas, idealizadora da TvTrem.
Pensando nos executivos e empresários que se locomovem de táxi, a InTAXI lançou uma mídia digital out of home com alta tecnologia. Dotados de uma tela de nove polegadas, cem táxis recebem sinal wireless para atualização do seu conteúdo, fornecido pelo Portal UOL. A grande novidade desse sistema é a interatividade. O passageiro pode mandar uma mensagem SMS para o número que aparece no canto direito da tela optando pela editoria da qual ele quer receber as notícias. Em três segundos serão enviadas somente informações relacionadas ao tema escolhido. “Esse software é único no mundo, é patenteado por nós”, revela o sócio da InTAXI, Hélcio Vieira. Enquanto as televisões estão ligadas – isso só acontece quando tem passageiro no táxi – a central da InTAXI consegue visualizar todo o conteúdo transmitido por cada táxi. “Para os anunciantes isso é muito bom. Eles podem atingir exatamente quem eles querem”, afirma Vieira.
CHOPP E INFORMAÇÃO
Entre um chopp, uma beliscada e um batepapo, os freqüentadores de 85 bares paulistanos, localizados principalmente, na Vila Madalena, Vila Olímpia e Vila Mariana, podem conferir a programação criada pelo CineBoteco e transmitida por televisões geralmente de 42 polegadas.
O conteúdo inclui frases de boteco, notícias sobre cinema, matérias de moda fornecidas pela Érika Palomino e o material eletrônico da revista Rolling Stone. A programação fica no ar das 18h às 00h, durante os dias em que os bares ficam abertos, normalmente de 3ª a domingo. O consumidor dessa mídia, segundo Eduardo Rosemback, sócio do CineBoteco, tem entre 18 e 39 anos, com tíquete médio acima de R$ 40, ou seja, o valor gasto por cada pessoa numa noite. “É esse o perfil do bar que os anunciantes buscam. Eles querem criar uma rede com alto poder aquisitivo”. A partir desse ano, o CineBoteco começa a transmitir no Rio de Janeiro. Com essa expansão, cerca de 800 mil pessoas por mês acompanharão a programação transmitida via banda larga.
NAS ESQUINAS DE SÃO PAULO
Quando o governo municipal de São Paulo pôs em prática a Lei Cidade Limpa, em janeiro de 2007, a publicidade exterior sofreu um doloroso golpe e as companhias que atuavam no setor tiveram de procurar outros rumos. A Eletromidia, responsável pelos telões espalhados em 25 cruzamentos da cidade, teve que focar os negócios nos 15 telões instalados em Porto Alegre, Curitiba, Florianópolis, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Ribeirão Preto, Osasco e na região do ABC paulista.
“Com a Lei Cidade Limpa tivemos um grande prejuízo. Como alternativa estamos investindo em novos projetos de comunicação indoor”, revela o diretor de TI, Rodrigo Pio Pedroso. Para Felipe Forjaz, da Elemídia, a Lei ajudou a acelerar os negócios de mídia indoor em São Paulo. “Anunciantes migraram para a Elemidia como complemento, já que as mídias externas deixaram de existir”.
Há divergências, contudo. Para o diretor executivo da Central do Outdoor, Cláudio Pereira, esse prejuízo não motivou o crescimento das mídias out of home. “O que ocorreu foi uma proliferação de outras mídias, mas não um crescimento”. Fábio Ribeiro, da TVO, concorda: “Não estamos disputando comercialmente com a verba do outdoor ou do busdoor que existia antes”.
Com ou sem favorecimento do projeto de reurbanização da cidade de São Paulo, o que a mídia digital out of home aponta é uma consolidação da convergência de mídias e uma mudança no perfil do consumidor e da publicidade. Por um lado, os anunciantes buscando potencializar suas vendas e, por outro, um público com escolhas cada vez mais segmentadas e que passa tempo demais em filas e no trânsito.
Por Karina Padial - Revista Imprensa - Abril/2008
Comentarios Recentes